segunda-feira, 15 de Outubro de 2007


Mais um Congresso do PSD, que foi tudo menos o "entronar" do líder.


Durante o fim de semana, os militantes do PSD reuniram-se em Torres Vedras para debater o futuro do Partido e do País.


Confesso que gostei do discurso inicial de Luis Filipe Menezes. Um discurso virado para fora, pragmático, mas quanto a mim demasiado fracturante, ou seja, um discurso que tinha o objectivo de reunir consensos, mas que ao mesmo tempo apontava os defeitos do anterior líder.


Miguel Relvas referiu que o discurso de Luis Filipe Menezes ao incentivar os delegados e militantes à pluralidade de opiniões, nomeadamente na formação de listas ao Conselho Nacional, esvaziava o seu próprio poder.Concordo. Mas também me parece que o Congresso é o sitio certo para o Líder se esvaziar do seu próprio poder e ter a capacidade de conviver com as diferentes ideias, que mesmo dissonantes se podem revelar úteis no futuro. Não é fora do Partido, é dentro do Partido que tal deve acontecer.


Foi uma opção, mas que à semelhança do que se passou durante o Congresso, não conseguiu o seu objectivo major. Unir o Partido.


Também não era tarefa fácil, depois de uma eleições directas acutilantes.


Muitos se queixaram da dificuldade em chegar junto do líder, mas Luis Filipe Menezes tinha deixado bem claro, que a formação das listas ao Orgãos Nacionais seriam da sua inteira responsabilidade e não sucumbiria a pressões.


Estranha, a inclusão de Zita Seabra como vice-presidente.


Novidade as propostas, face à realização de uma nova Constituição e não uma revisão, e a de aumentar os poderes do Presidente da República. Parecem-me boas propostas. Talvez o PSD tenha outras prioridades, mas Luis Filipe Menezes conseguiu pelos menos chamar a atenção com estas novas ideias, dando timming e espaço político, e que valem por serem diferentes.


Veremos o percurso deste novo PSD, que terá a meu ver, que ser reavaliado antes do período eleitoral próximo. Aquilo que Menezes poderá fazer no Partido dependerá da forma como a Sociedade Portuguesa o aceitar enquanto líder da oposição.


Com toda a certeza algumas distritais e concelhias irão ter consequências porque são as mais próximas da população.


Presente , muito presente, esteve Pedro Passos Coelho, que se apresentou com uma sobriedade notável e uma clareza de raciocinio que não passou despercebida à comunicação social.


É sem dúvida um novo ciclo. Nunca as bases tinham sido chamadas para escolher um líder. É delas a responsabilidade. Cabe a Luís Filipe Menezes não as desiludir.


O País continua à espera.

6 comentários:

L.C. disse...

Sejamos claros: Manuela Ferreira Leite interviu ontem no Congresso de Torres para defender a não diminuição dos impostos, porque era a sua política que Meneses poria em causa e não, como ela disse, que assim o PSD estava a legitimar o sucesso do governo PS.
Ora, vou repetir-me, esta política da tanga, do aumento do IRS, IVA, SCUTS, reformas a pagarem mais IRS, portagens, cortes nas despesas da saúde, educação, maior poder à RTP, destruição do Estado Social, maior despesismo e maior repressão, começou com Durão Barroso, teve um apogeu com Santana, e Sócrates limitou-se a reforçar ainda mais esta política com o conforto da maioria.

Leite, que agora aparece como a Santa Padroeira do PSD, foi a autora material da política cega de combate ao déficit, onde valeu tudo, que teve reflexos directos nas nossas reformas, que atacou sem precedentes a classe média. Foi ela que inventou o super director-geral dos impostos, um competente quadro que conseguiu este milagre: pôr a estrutura informática a combater não só a fraude fiscal- essa deve ser combatida, claro- mas a perseguir os cidadãos contribuintes tendo essa política resultado num saque admirável aos contribuintes.

O déficit de 3 por cento, que agora Sócrates se orgulha de apregoar, mais não é do que um aumento brutal da carga fiscal, sem correspondência inversa a cortes na despesa pública. Resultado disto: o país não consegue crescer, não vai crescer, o desemprego aumentou brutalmente porque em época de crise como não há investimento privado am alta, deveria ser o Estado a fazer investimento produtivo, só que não o faz.

O drama está à vista: vamos continuar a pagar impostos e quanto mais pagarmos menos cresceremos porque o nosso dinheiro não vai para acelerar consumo, revitalizar a economia privada. O nosso dinheiro irá para sustentar um Estado pesado, incompetente, parasita, um Estado que não serve os cidadãos, um Estado que vive como uma sanguessuga de impostos directos e indirectos.

Meneses não vai conseguir matar aquele PSD sinistro do Dr. Lopes. Pior: vai ter o "loser" Lopes, detestado pelo eleitorado que o penalizou fortemente, que não o quer de volta, que lhe acha graça e até simpatiza com ele ( falo por mim) mas que é um bluff como governante, ele vai ser líder parlamentar! Até tem lógica: Lopes vai liderar 80 por cento dos depitados que ele escolheu nas suas listas. Vai haver dois PSD: o da AR e o de Gaia. Eeheheh!!! E o da madeira, of course!..
Não tenhamos memória curta por favor. Lembremo-nos do seu super Audi da Câmara, da sua arrogância, de Portas e Bagão Félix e Morais Sarmento. E o cromo Rui Gomes da Silva, o inteligente ministro que deu a barracada com Marcelo ? Please!!! Um pouco de refresh ! Um pouco mais de decência e já agora de competência.
O que Cavaco Silva dirá deste PSD? O pior imagino.

Para mim a imagem mais degradante do congresso foi ver tête-à-tête Meneses e Lopes com a quadrilha de ex-ministros que nos últimos anos governaram o país. O novo líder devia ter dado o sinal inequivoco que o PSD falhado, falido, tinha terminado. Não. Pôs o Lopes a seu lado e caiu no ridículo a convidar Leite para Presidente do Congresso. Levou tampa depois de se ter ajoelhado à Santa Padroeira. Fracasso.
Se Meneses vai continuar a fazer política por impulsos, e não sabemos se não terá sido Santana a sugerir-lhe o gesto, já que cochichava a seu lado, então prepare-se para ser apeado daqui a dois anos pelo Passos Coelho que já começou a fazer-lhe a cama.

Não parece que o homem de Gaia esteja bem rodeado e mesmo alguns notáveis como Aguiar Branco, que vieram dizer que estão vivos e que se houver um lugar especial até alinham, sejam por si moeda forte para segurar um partido que trás consigo um passado recente do pior que Portugal alguma vez teve em política. Só a vassourada total permitiria um bom fôlego a Meneses, como aliás Cavaco o fez em 1987. Seguiu sózinho o seu caminho e trouxe consigo, pela rédea curta, uns jovens turcos que depois deram naquilo que sabemos: uma casta cavaquista que enriqueceu e se tornou no pior do que a política pode ter.

Portugal pagará caro estas aventuras. Aquela gente não tem autenticidade, valor, seriedade, estrutura intelectual, nem espírito de serviço público. É uma classe que faz da política um jogo de mau xadrez, uma perversão da causa pública.
Demasiado mau para ser verdade. A única vantagem é irem morder as canelas do já cansado Sócrates, um líder só, sem sucesso, sem talento, um político que não soube arriscar em fazer um país a caminho da Europa.

A coisa está mesmo feia

L.C. disse...

A última vez que tinha ido a Torres Vedras tinha sido ao Carnaval. Hoje voltei para ir ao Congresso do PSD. Estava menos animado do que o Carnaval, menos aguerrido do que nos tempos idos. Há por ali muita contenção.

A minha entrada começou logo com um sobressalto. Um tipo que me deve 6oc contos há anos aparecia a apoiar um líder. E corro sempre o risco de ainda ser sovado. Depois um segurança que me levou pelo braço no congresso de Tavira lá estava mais velho, claro, mas ainda mais parecido com um armário. O ambiente não estava nada a meu favor. Ia sendo atropelado pelo passo acelerado de Macário e confundi o penteado do Mendes Bota com um capacho voador.

Alberto João Jardim era o mais igual a si próprio, tirando Manuela Ferreira Leite. Jardim esteve sempre com o seu delfim, o presidente da Câmara do Funchal. Ainda me atirou:" pare lá com as fotos, amda-me a fotografar há 30 anos!"- Depois estendeu-me a mão.
Bom foi ver a cara de Cunha Vaz, o dono da agência de comunicação que controla Meneses, quando Jardim disse que a política está cada vez mais nas mãos da Maçonaria, dos lobbies ( desta vez não referiu o gay) e das agências de comunicação.
Paula Teixeira da Cunha abandonou ao fim da tarde o Congresso, vestida de casual chique, fumando muito e com uma evidente falta de bom perder.
O PSD vai voltar à ideologia e estética provinciana, aliás a única que lhe fica a matar. aquilo é um partido nascido pela caciquagem ( não existe esta palavra, passa a existir!) local, pelos homens que herdaram muitas posições políticas locais ainda do regime deposto, e agora e já antes são os filhos, netos e enteados que aí estão. Há muita gente de qualidade, são empreendedores, adoram obras públicas, são os pais das rotundas, dos pavilhões gim no-desportivos...sei lá. Que seria do país sem estes cromos de farpelas cinzentas, penteados com laca e capachinhos laranjas ?

Havia por ali gente aos bonés e alguns oradores foram lá dizer que afinal estavam disponíveis. Ao contrário de Manuela Ferreira Leite que acabou por desiludir Meneses e fragilizá-lo ao recusar depois de ter sido convidada em directo perante o congresso. A xico-espertísse de Meneses falhou, foi a primeira manobra perigosa e saiu logo de estrada.
A sombra de Santana foi permanente durante a tarde. Ele acabou por pedir por favor aos fotógrafos para não o seguirem na entrada no pavilhão para não ofuscar o líder. Acabou por esperar e entrar pela lateral, abdicou noite dentro de falar e disse que nele ninguém manda. Lindo menino guerreiro!
Ressuscitou e aí está para lançar a confusão.

Sá Carneiro foi constantemente citado, deverá ser dos defuntos mais felizes, sempre recordado por tudo, todos e a propósito de nada.
Zita Seabra também resiste e aí está ao lado do homem de Gaia.

Ao perto vê-se melhor: Meneses parece querer dar outra imagem de si. Parece andar ao ralenti, posa com as mãos na cara, fala mais pausadamente, está contido.
Vai caír no erro de Santana: quer ser outro, mostrar outro perfil. Vai perder autenticidade e vai-lhe tirar credibilidade, se é que tinha alguma.
À sua volta os ex-cavaquistas voltam a reunir-se. Duarte Lima, Mendes Bota, Arlindo carvalho, Couto dos Santos, Ângelo Correia... meu Deus, se isto é renovação vou ali já venho.

Claro que Meneses vai dar cabo da cabeça a Sócrates e vai haver oposição cerrada ao engenheiro. Mas não consigo imaginar esta gente de novo no governo. Algumas destas figuras fazem parte do pesadelo recente de Portugal. Foram eles que lançaram esta ideia do país na tanga, do neo-liberalismo, da pesada carga dos impostos. O pior da política do Sócrates bebe neste PSD dos interesses, no liberalismo para despedir e privatizar e no socialismo para cobrar impostos.

F.T. disse...

Se dúvidas havia sobre que tipo de oposição se poderá esperar do PSD, essas dúvidas dissiparam-se completamente, este fim-de-semana, no Congresso do PSD. Não será pela esquerda, nem será pela direita, muito antes pelo contrário, porque será por lado nenhum.
Ficou claro que Menezes reproduzirá a cassette neo-liberal, é disso que os portugueses parecem gostar e é disso que os patrocinadores do partido gostam. Mas há um senão: houve outro, José Sócrates, que comprou a mesma cassette e a reproduz como ninguém, com adornos requintados de jogging político encenados em choques tecnológicos patrocinados por operadoras móveis, que agradecem a gratuitidade do serviço de um inesperado chefe de vendas dos seus portáteis ao qual apenas têm que pagar em minutos de tempo de antena. Barato.

Como ser alternativa, então? A ultrapassagem de Menezes, pela esquerda, dizia-se, far-se-á pela radicalização do discurso anti-público: privatizar, privatizar, privatizar. Portos, aeroportos, transportes, águas, tratamento de resíduos, saneamento, etc. E através de parcerias público-privadas (a que também se chama – e o povo gosta disto, soa a técnico e moderno – de PPP), através de um pacto entre todos os partidos com assento parlamentar (novamente, o povo gosta, isto é a promoção da unidade nacional, a Nação de mãos dadas em torno de um objectivo) sobre um plano estratégico de obras públicas para os próximos 10 anos e através da libertação do Estado do fardo da acção social para as IPSS e Igreja (finalmente alguém que valoriza a Igreja). Na Saúde, Menezes propõe uma partilha entre o público e o privado, para que os portugueses possam escolher livremente a qual dos dois recorrer (de acordo com as suas posses, isso é melhor que não seja dito, o povo pode não gostar da ideia de uma Saúde para ricos e outra para pobres). A Constituição, esse empecilho à modernização, propõe Menezes que seja alterada no sentido de acabar com a obrigatoriedade da simultaneidade na criação de regiões, permitindo a coexistência de zonas com e zonas sem regiões administrativas (de novo, o povo gosta, na “sua” região é sempre onde a regionalização é mais necessária, porque a “sua” região é muito melhor do que a “dos outros”). Finalmente, o Tribunal Constitucional de Menezes é uma associação de juízes “profissionais” - era o que faltava que fossem amadores, os senhores - uma proposta que se assemelha à da profissionalização dos árbitros, num campo que os portugueses conhecem bem, o futebol e “acharão” bem.

Se nos projectos a surpresa desagrada, nos nomes escolhidos para o auxiliarem na sua prossecução a surpresa ainda é maior e também negativa. Menezes propõe-se fazer a renovação no PSD e no país desenterrando figuras muito para lá do fim do prazo de validade, nos quais se contam tesourinhos deprimentes como Pedro Santana Lopes, Zita Seabra, Mendes Bota e Martins da Cruz (um bom retrato deste último pode ler-se aqui).

É francamente pouco o que o PSD oferece. Políticas estafadas, políticos com provas dadas da sua incapacidade e um discurso populista incapaz de os camuflar. O Congresso deixou antever o prolongamento do estado de graça do governo de José Sócrates e, num futuro próximo, um PSD a rivalizar com o PP, quer no número de deputados, quer nas soluções propostas. A existência de uma alternativa de poder credível e de uma oposição efectiva, tão necessárias como estímulo ao funcionamento de qualquer regime democrático, ficarão à espera de melhores dias. Por hora, Sócrates é o que há e o PSD já foi. Apenas a dúvida se Menezes, tal como Sócrates faz com o jogging, usará os seus dotes futebolísticos na sua promoção mediática e nos habituaremos também a vê-lo a dar toques numa bola em frente às câmaras de televisão. Quem se espantaria?

Anónimo disse...

UM TRIBUNAL "SULISTA, ELITISTA E LIBERAL"?

«No encerramento do XXX congresso do PSD, o líder recém-eleito defendeu mudanças no Tribunal Constitucional (TC) considerando que ser este conhecido "por resultados de sete-seis, seis-sete, de acordo com a maioria parlamentar que está em funções, não prestigia aquilo que é a fiscalização da democracia". E acrescentou não ter "receio de acreditar que com uma discussão nacional ampla, que numa secção especial do Supremo Tribunal de Justiça, com magistrados profissionais possa ser avaliada de forma mais isenta, permanentemente isenta, a constitucionalidade das leis em Portugal".

Não tivessem sido proferidas pelo presidente do maior partido da oposição, e estas afirmações não teriam importância de maior. Todavia, foram-no, e não podem deixar de ser repudiadas por quem preze o nosso modelo de justiça constitucional, ou modelos análogos adoptados em muitos países do continente europeu (e não só) cuja estabilização democrática se verificou na segunda metade do século passado.

É patente para quem seja minimamente conhecedor da actividade do, por exemplo durante a última década, a falsidade da afirmação implícita de que nele se verificam tendencialmente "resultados de sete-seis, seis-sete, de acordo com a maioria parlamentar que está em funções". Certamente, se assim fosse, tal não prestigiaria "aquilo que é a fiscalização da democracia". Sucede, porém, que não é, e teria bastado uma rápida consulta à jurisprudência constitucional disponível no sítio do Tribunal, para, mesmo sem estudo exaustivo, se ter de concluir pelo contrário: tais "resultados de sete-seis, seis-sete" são pouco frequentes, menos ainda se podendo dizer que variam "de acordo com a maioria parlamentar que está em funções", e sendo, por exemplo, inexistentes em processos directamente relativos a partidos políticos, como os das respectivas contas.

Independentemente disto, é, porém, logo a utilização de uma pretensa tendência nos resultados das "votações", para um "julgamento sumário" do TC, e com ele de modelos semelhantes existentes, por exemplo, em Itália, em Espanha, na Alemanha (apenas para referir alguns países mais próximos do nosso), etc., que denota o mais grave: a incompreensão da especificidade da formação da vontade decisória na jurisdição constitucional, a qual é baseada em razões, numa fundamentação que vale pela sua substância e não é redutível ao "rolo compressor" da maioria, ou a um resultado análogo ao... desportivo ("sete a seis", "cento e vinte e dois a setenta e cinco", etc.). Por mais que se pretenda reduzir a tal perspectiva a actividade da Assembleia da República (o que também é errado numa "democracia deliberativa", em que a vontade política se deve formar com base nas razões carreadas ao debate parlamentar), ela é incorrecta para o Tribunal Constitucional.

Reconhece-se que este, como todos os árbitros (no caso, da constitucionalidade) e muitos tribunais, nem sempre tem boa imprensa, sendo a sua imagem muitas vezes moldada pela errada aplicação às suas decisões da linguagem de análise parlamentar.

É, porém, de estranhar que nessa falsa ideia simples alinhem tão facilmente dirigentes máximos de partidos com responsabilidades importantes no nosso desenho e prática institucional. E é até, sem dúvida, contraditório com a tendência registada nas revisões da Constituição e da Lei do Tribunal Constitucional, de sobrecarregar crescentemente este com funções alheias ao estrito controlo da constitucionalidade, próprias de um "terceiro imparcial" também em relação à actividade política - o caso, por exemplo, das funções de depositário de declarações de património e rendimentos de titulares de cargos políticos, de fiscalizador (mediante entidade própria que funciona junto do TC) e julgador das contas dos partidos políticos, de última instância em contencioso eleitoral e de garante último da democracia interna dos partidos políticos (competência esta, como se sabe, ainda recentemente invocada na disputa eleitoral interna no PSD).

Não significa isto, certamente, que se não possa pensar em mudanças na configuração do Tribunal, quer quanto ao seu enquadramento e à forma de designação dos seus membros, quer, por exemplo, quanto à sua localização geográfica. Na "discussão nacional ampla" que as teria de preceder não deve, porém, esquecer-se: que o actual TC já contém, por imposição constitucional, "magistrados profissionais", num mínimo de seis em treze, constituindo hoje até a maioria dos juízes em funções; que na grande maioria dos países mais próximos do nosso existe um órgão jurisdicional como o TC, e que é necessário que a pluralidade das mundividências existente em cada momento se reflicta na interpretação da Constituição, o que dificilmente aconteceria com o controlo da constitucionalidade por um Supremo Tribunal, hoje como no período posterior ao 25 de Abril (e quer este fosse o Supremo Tribunal de Justiça, quer o Supremo Tribunal Administrativo); e que propostas de alteração de instituições relevantes do nosso sistema constitucional não devem ser usadas sobretudo para encher agendas "rupturistas", de duvidosa viabilidade e mérito. É, aliás, bem sabido que uma das marcas características do "terceiro-mundismo" político está na atracção dos apelos a rupturas ou "experimentalismos" constitucionais, em substituição das alterações graduais e pontuais que se justifiquem e, sobretudo, do estudo e do debate de propostas concretas e realistas para a "política quotidiana".»

PAULO MOTA PINTO
No:Jornal Público

J.E.R. disse...

Quarta-feira, Outubro 17, 2007
Uma nova Constituição?


É verdade que a Constituição tem referências que a ancoram a um período da história de Portugal, mas isso é verdade para qualquer Constituição, da mesma forma que o é para todos os documentos humanos.

Uma nova Constituição porque está impregnada de 25 de Abril?

Pessoalmente considero que não viria mal ao país se a Constituição dispensasse valores que estão longe de ser universalistas e imutáveis. Mas a verdade é que a democracia não se alcançou de forma evolutiva e quando a Europa a adoptou como modelo de governação, a democracia. A Constituição faz parte dessa democracia, é um dos seus símbolos, se é um símbolo dessa época isso só sucede porque só nessa ocasião os portugueses conseguiram impor a democracia a uma direita que, de forma mais ou menos assumida, optou pela vantagens económicas e políticas que obteve mantendo uma ditadura anacrónica.

O que está a mais na história de Portugal não é a Constituição de 1976, o que nos envergonha enquanto povo não é a simbologia da Constituição, é termos sido cobardes ou sacanas ao ponto de termos mantido ou imposto uma ditadura até aos anos 70. De resto, a mesma direita que governou em ditadura foi vanguarda na defesa do socialismo na actual Constituição.

Com os mesmos argumentos com que alguns defendem uma nova Constituição poder-se-ia defender uma nova Bíblia ou um novo Corão. Existirão alguns documentos mais anacrónicos do ponto de vista do enquadramento histórico dos valores e princípios que transmitem.

Uma nova Constituição feita pelo PSD?

Prefiro uma Constituição elaborada nos anos 70 fruto do debate de uma Assembleia Constituinte do que uma constituição feita por um grupos de técnicos convidados para o efeito pelo presidente da câmara de Gaia. Prefiro uma Constituição feita por representantes eleitos pelos portugueses do que um documento apresentado para negociações nos bastidores do Parlamento, depois de ouvidos o Compromisso Portugal e os ex-ministros de Cavaco Silva.

A Constituição impede o desenvolvimento do país?

O PSD já governou uma boa dúzia de anos com as actuais regras e não me recordo de ter havido alguma medida importante que tenha ficado por adoptar em consequência da Constituição. É evidente que a Constituição impõe limites, mas é para isso mesmo que ela serve, para que a democracia seja respeitada, para que os mais fracos não fiquem à mercê de abusos de poder, para que cada legislatura não seja transformada num regime político.

Foram muitas mais as decisões e medidas adoptadas ou que deixaram de ser adoptadas por vontade de alguns grupos de interesses do que devido aos princípios ou aos limites da Constituição.

Um Tribunal Constitucional substituído pelo Supremo?

Pelos acórdãos do Supremo que de vez em quando tenho lido mais valia acabar com a Constituição. Substituir um Tribunal cuja composição reflecte a mudança da sociedade enriquecendo a interpretação da Constituição por magistrados de carreira, seleccionados ao longo de dezenas de anos em função de critérios conservadores e corporativos?

Luís Filipe Menezes deveria estar mais preocupado com a democracia do PSD do que com a democracia do país, deveria ter mais dúvidas em relação ao seu Conselho de Jurisdição do que em relação ao Tribunal Constitucional. É bem mais perigoso para a democracia e para o desenvolvimento económico a escolha de uma liderança partidária por um processo estranho, que se assemelhou a uma opa em que ganhou quem comprou mais votos, do que uma Constituição que tem o condão de lembrar à direita conservadora que em Portugal houve um 25 de Abril e que os seus representantes na Assembleia Constituintes foram tão cobardes que até defenderam o socialismo.

Anónimo disse...

A DIREITA BOURBÓNICA

«A ironia nunca castigou ninguém tão cruelmente como os Bourbons franceses. Em 1792, perderam o trono de França. Restaurados graças a uma guerra europeia, caíram novamente em 1830. Com tudo a seu favor para recuperarem a coroa na década de 1870, viram-na escapar uma terceira vez. Porquê? Porque nunca conseguiram deixar de querer ser reis à antiga, quando os tempos já não estavam para isso. Daí o célebre dito sobre os Bourbons: "Nada esqueceram e nada aprenderam." Em Torres Vedras, no passado fim-de-semana, vimos a nossa direita bourbónica. Os líderes do PSD também nada esqueceram e nada aprenderam.

Este congresso terá apanhado de surpresa quem viveu das rações de sabedoria distribuídas durante as últimas semanas. Em vez do esperado festival de descamisados, tudo se reduziu, perante uma plateia apática, em saber se Santana falava ou Ferreira Leite cedia aos rogos para ficar. Em suma: Menezes não é o que toda a gente disse que era e o PSD continua a ser o que toda a gente sempre soube que era.

Menezes apareceu enredado em cálculos complicados. Não quer o referendo europeu, para não andar de braço dado com Sócrates; não pede a descida dos impostos, "para não dar razão ao PS"; acha que a regionalização, afinal, não é uma "prioridade". E sim, é verdade que lastimou o encerramento das maternidades, os "direitos sociais retirados", e os 40.000 candidatos frustrados a professor. Mas ninguém o ouviu oferecer-se para reabrir maternidades, devolver direitos e dar emprego. Admirem a arte: condena o que se faz, sem dizer que faria diferente; e para não dar razão ao PS, deixa o PS ter razão.

O homem que todos imaginavam chegado do mato, bravio e insociável, andou a pedir força àqueles que, segundo a teoria em vigor até ao fim-de-semana, devia ter pendurado e esfolado. Foi preciso Manuela Ferreira Leite lembrar-lhe que convinha haver "renovação". Menezes, como os seus antecessores, tentou "federar" e "unir", e com os mesmos resultados sofríveis. No fim, exibiu ao mundo uma comissão política recheada de nomes que costumavam fazer manchete dos jornais há quinze anos - e nem sempre pelas melhores razões. Entretanto, Santana foi-se posicionando para gozar sob Menezes a vida que levou sob Barroso.

Há razões para espanto? Não há. Menezes foi adjunto do ministro da Educação no Bloco Central e secretário de Estado de Marques Mendes durante o cavaquismo. Só o facto de a política estar tão chata pode explicar que ninguém tivesse tirado consequências deste CV, preferindo sonhar com um improvável outsider. Menezes nada tem a ver com uma revolução ideológica ou social, mas com a arrastada guerra civil na direcção do PSD, entre os que Cavaco Silva fez ministros e os que só chegaram a secretários de Estado (ele e Santana). Ninguém mudou, nada mudou: são os mesmos, com as mesmas ronhas e quezílias.

Basta ouvir Menezes. É a velha escola. Arruma-se na "esquerda democrática", como era hábito no PPD em 1975. Acredita no betão, como acreditavam os governantes do PSD em 1987. Insensível à contradição, acusa Sócrates de beliscar os "direitos adquiridos" e exige-lhe ao mesmo tempo que combata o "monstro da despesa". Quer conservar o "Estado social" e propõe-se privatizá-lo. É estatista, é liberal - é o que for preciso, desde que não tenha de ser nada de claro e definitivo. Foi sempre assim que os líderes do PSD se pouparam a debates e opções difíceis.

A questão não é Menezes, tal como não foi Santana ou Mendes. É a cultura política das elites do PSD, de que Menezes, Santana e Mendes fazem parte há décadas. "Para que serve o PSD?", perguntou alguém. Liderado por esta gente, serve para manter o país tal como está, porque foram eles, no poder em 20 dos últimos 26 anos, sozinhos ou coligados, que mais do que ninguém o fizeram assim - no que tem de bom e de mau. Para uma alternativa é que não serve certamente.

Segundo conta Freitas do Amaral, Sá Carneiro (contra quem Menezes fez guerra em 1978) pensava, no fim de 1980, em livrar-se dos seus colegas da direcção do partido. Já não provocou mais essa cisão, que teria sido a terceira no PSD, depois das de 1975 e 1978. Interrompeu-se assim a busca de "uma linha clara e firme", para além dos equívocos e misturas do PREC. A consequência foi esta direita partidária, nas mãos dos que já então, contra Sá Carneiro, preferiam a confusão e dos que, sem Sá Carneiro, a passaram a preferir também. Tal como os Bourbons, talvez tenham outra oportunidade. De uma coisa, porém, podemos estar certos: vão descobrir novamente maneira de a desperdiçar.»

Rui Ramos
No:Jornal Público